A importância e os desafios da base do futebol no interior

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Vinicius Antonio Morais, Instagram: @viniciusamorais, Linkedin: viniciusamorais,Twitter: @viniciusamorais

INTERIOR TEM BASE?

Muito se fala da diferença que envolve o futebol em relação às grandes equipes quando comparadas aos pequenos, seja quando tratamos de receitas, nível de jogo, mídia, competitividade e outros. A mesma discussão é tema de debates para comparar o futebol profissional com o da base.

Então o que dizer quando se trata de equipes de base em clubes menores?

Antes de, especificamente, tratar do assunto vamos tentar fazer uma viagem ao tempo e entender o futebol de base no Brasil.

Até o inicio dos anos 2000 o processo era mais seletivo do que de formação. Os inúmeros campinhos, o extenso litoral praiano, nosso clima e o interesse dos jovens faziam que se jogassem “bola” quase que em tempo integral, proporcionando uma formação empírica.

Essa experiência se torna, hoje, desafio constante dos profissionais na replicação, alinhado às novas metodologias de treinos. A diminuição dos espaços para prática do futebol, pincipalmente nos grandes centros urbanos, junto com a chegada de novas distrações que competem com o interesse dos jovens, fizeram diminuir o período com a bola no pé durante a infância e a adolescência.

A conhecida teoria das 10 mil horas de Gladwell diz que se dedicarmos 10 mil horas, o que equivale 3 horas de prática por dia durante 10 anos, a qualquer atividade, seremos capazes de virar experts. Mesmo a teoria não trazendo certeza ao resultado final é certo que, a prática auxilia no melhoramento e, mesmo sendo um número difícil de chegar, nossas crianças e jovens estão cada vez mais distantes desse número com a bola nos pés. Com isso as equipes precisam, além de selecionar, passar a formar o atleta tentando suprir nas academias o estímulo da essência inata que antes era introduzido pelas ruas. Isso ainda é um processo novo e mutável com variáveis em demasia para serem estudadas e avaliadas, mas o que fazer quando isso tem que ser feito longe dos grandes centros?

Os anseios e desejos de tornar-se um astro da bola, do jovem que veste a camisa e usa toda estrutura de um time grande, não é diferente daquele que também percorre esse sonho utilizando estruturas mais singelas de clubes menores, o sentimento os une.

Do lado de fora está quem pode ser a peça chave nesse processo. Para aquele que trabalha com esses garotos o objetivo precisa ser de moldar e fazer com que esses atletas aperfeiçoem suas habilidades para que prossigam na carreira e possam conseguir ter desempenho no futebol profissional. Uma das grandes diferenças esta nas ferramentas disponíveis para um em detrimento ao outro, o que faz necessário ao profissional do clube de interior se reinventar a todo o momento e utilizar da criatividade para reproduzir métodos com aquilo que o é disponível.

A reinvenção às vezes ultrapassa apenas os métodos, pois, é comum em clubes menores profissionais encontrarem dificuldades diversas, como espaços para treinamentos, muitas vezes carros de professores transformam-se em transportes para deslocar material e as comissões nem sempre são recheadas, o que acaba exigindo que o professor torne-se multifuncional, passando a preocupa-se e tratar não apenas com questões técnicas e táticas, mas também psicológicas, nutritivas, sociais entre outras. Como experiência torna-se um diferencial a esses que passam a enxergar o processo como um todo. E essa multifuncionalidade acaba tornando-se um diferencial positivo, não apenas aos profissionais como também aos clubes, pois geralmente aqueles que trabalham nas equipes de base dos clubes menores por ventura acabam sendo parte da comissão da equipe principal, o que ajuda no diálogo entre os departamentos. Com isso, a possibilidade de lançar jovens passa ser mais aproveitada já que, quem está no comando poderá conhecer e explorar melhor dos atletas.

Apesar de cada vez mais existir métodos e parâmetros que ajudam na identificação do talento do atleta, não existe uma receita única de sucesso e é praticamente impossível afirmar que um jogador da base de um grande clube terá uma carreira maior do que aquele que vem sendo formado no interior. Como não temos ainda claro e definido sobre o processo de transição no Brasil, é real que possivelmente alguns que tornariam grandes nomes não consigam passar por esse momento, o que me faz enxergar um fator positivo aos atletas formado nos menores. Para eles a adaptação é mais rápida e menos dolorosa quando chegam a estruturas melhores, seja no profissional ou mesmo base, adaptam-se mais rápido diferentemente quando o caminho é inverso.

É comum ver muitos que fizeram toda carreira de base nos grandes não se habituam aos clubes menores, quando são emprestados ou mesmo terminam seus contrato, e acabam sofrendo um baque enorme e de difícil reversão nesse momento delicado de transição da base para o profissional.

Além dos clubes profissionais outros grandes agentes participativos na formação são as escolinhas de clubes amadores. Como disse ainda no início, no Brasil, pelo futebol ser praticado por grande parte da população e a possibilidade de jogar quase que o dia todo, foi e ainda, é um diferencial que temos em relação a outros países. Por isso precisamos olhar e discutir o futebol de uma forma geral, não limitando as grandes competições e equipes. Pondero que se caso também estivesse no lugar dos dirigentes dos clubes maiores, provavelmente lutaria para ter mais jogos em alto nível durante o período de formação dos meus atletas, mas isso pode trazer um dano no descobrimento de novos talentos.

Hoje para participar da maioria das competições oficiais, em categorias maiores, com a presença dos grandes é preciso também ser um clube profissional o que exclui um alto número de possíveis equipes participantes e junto uma elevada quantidade de atletas que ficam impossibilitados de se exibirem aos melhores. Concordo que é preciso aperfeiçoar a elaboração, profissionalização e competitividade das competições, mas a exclusão por apenas excluir nunca pode ser a melhor opção.

Alguns clubes já vêm por si promovendo competições com intuito de oportunizar e observarem atletas dessas escolas de futebol. Em Minas além da já tradicional Cruzeiro Cup, o Atlético tem promovido a Copa do Rei, voltada para idades menores. O assunto precisa estar mais presente nas discussões a fim de, achar uma fórmula em que faça que os grande tenham o máximo de jogos em alto nível, mas também que essas escolinhas de clubes amadores possam melhorar seus trabalhos e tenham condições de ter bons desempenhos nas competições. Aumentando e melhorando o número de atletas para aparecerem, afinal usando um termo do mundo das estáticas, quanto maior for à necessidade de precisão, maior deve ser a necessidade da amostragem.

Para ilustrar essa importância do interior na formação do atleta, nas últimas quatro Copas do Mundo 2002/2006/2010/2014, dos 85 jogadores brasileiros que fizeram parte dos elencos, 33 deles, ou seja, 39% tiveram como parte no processo de formação um clube de interior.

Trazendo informações de um processo ao qual participo, o Guarani, em Divinópolis-MG, reativou a base em 2015, na oportunidade, devido um convite para participar da Taça BH, com uma rápida divulgação, foi feita uma peneira com mais de 300 inscritos, desses, 25 foram selecionados. A partir daí, a montagem do elenco profissional desde então , tem 30% das vagas preenchidas por atletas da base. Esse ano, nas seis rodadas disputadas no Módulo II já tivemos 6 atletas da base em campo, sendo que quatro são oriundos daquela primeira equipe Sub-17 de 2015.

Mas como nunca é só futebol, não podemos limitar essa importância dos clubes menores apenas ao que acontece dentro de campo. A base no interior é também relevante em outros setores levando além do desportivo outros pilares como propósito. O social com engajamento de crianças e jovens com esporte e o institucional com objetivo de construir o futuro do clube, criando laços afetivos com futuros torcedores, treinadores e dirigentes.

Aqui no Guarani já temos resultados quanto a isso, aumentamos de forma significativa nosso público nos jogos da equipe principal, com a presença massiva de crianças da escolinha, junto com familiares, já temos em nossas comissões ex- atletas da base trabalhando. E socialmente, mesmo sendo difícil medir o impacto, é certo que diretamente ou indiretamente estamos contribuindo para formação de muitos jovens.

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Vinicius Antonio Morais

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